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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010    12h35
Beleza venenosa

No Brasil, não há um regulamento oficial para cosméticos ecológicos, orgânicos ou naturais.


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Dicas de beleza da cabeça aos pés.

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Por Iara Biderman

Cosméticos e itens de higiene escondem um lado nada limpo em suas fórmulas. A maioria usa vários desses produtos por dia, mas desconhece o que anda passando no corpo, no cabelo, no rosto. Melhor saber

Em uma típica rotina de higiene e beleza, você talvez comece o dia esfregando lauril sufato de sódio em toda a pele e no couro cabeludo.

Depois, pode espalhar diazolidinyl urea no rosto, parabeno no corpo e passar sal de alumínio nas axilas. Certos dias, talvez inclua camadas de formaldeído nas unhas e de peróxido de hidrogênio e amônia nos cabelos.

Você pode não ter a menor ideia do que sejam essas substâncias, mas elas estão na maior parte dos cosméticos -sabonete, xampu, hidratante, desodorante, esmalte e tintura para cabelos.

E daí? São substâncias proibidas? Não, mas podem significar riscos à saúde. Segundo associações de consumidores, fabricantes de cosméticos, mesmo sabendo disso, continuam usando esses ingredientes e não divulgam os problemas relacionados a essas substâncias.

Terrorismo verde? Bem, o vídeo "The Story of Cosmetics" (www.storyofcosmetics.org), que aponta os potenciais perigos de componentes encontrados na maioria dos cosméticos, pode deixar muita gente aterrorizada.

No vídeo, câncer, distúrbios neurológicos e infertilidade são associados a xampus, cremes, desodorantes e até itens para bebê. O intuito é alertar sobre o perigo oculto nas fórmulas e pressionar as autoridades para aumentar o controle sobre os produtos de beleza e higiene, proibindo os mais tóxicos.

Mas ninguém controla o que vai no creminho que você passa ao redor dos olhos ou no talquinho do bebê?

Mais ou menos, dizem os militantes dos cosméticos "limpos". Como boa parte dos testes de segurança é fornecida pelos próprios fabricantes, resta uma enorme margem de dúvida sobre os resultados apresentados.

No Brasil, o terceiro maior mercado de cosméticos do mundo, é a Anvisa que regulamenta esses produtos.

QUESTÃO DE DOSE

A agência divide os cosméticos em dois grupos. O grau 1 inclui os considerados mais simples na formulação e nos efeitos prometidos, como condicionadores, xampus, sabonetes. Esses não são submetidos à análise. Basta uma notificação da empresa.

Os produtos grau 2 (alisantes, antitranspirantes, tintura de cabelo) precisam de registro e passam por análise técnica. Os fabricantes têm de apresentar documentos para comprovar que as substâncias estão dentro dos limites considerados seguros.

Aí que a coisa pega entre os militantes dos cosméticos limpos e a indústria. Respaldados pela lei, fabricantes dizem que, embora alguns itens sejam tóxicos, as doses usadas não oferecem riscos.

Afinal, homeopatas (mais afinados com o povo "limpo" do que com a indústria química) são os primeiros a dizer que a diferença entre veneno e remédio está na dose.

O time que luta por cosméticos mais seguros admite que a química de cada produto, individualmente, não faz mal. Acontece que ninguém usa um só. Calcula-se que, por dia, mulheres usem dez e homens, seis produtos.

Dia após dia, ano após ano, pequenas quantidades de produtos tóxicos vão se acumulando no organismo.

"Em longo prazo, esses cosméticos trazem problemas", diz Edilene Costa, da Abrapan (Associação Brasileira de Produtos Artesanais, Naturais e Bem-Estar) -criada para apoiar empresas de "produtos naturais" (conceito vago e sem regulamentação clara) e conscientizar o consumidor da importância desses produtos para a saúde e o ambiente.

No site da Abrapan (www.abrapan.org.br) há uma lista de substâncias inseguras encontradas em cosméticos. É um começo.

"O consumidor deve ler os ingredientes que compõem o produto e buscar informação", diz Costa.

Não é tão simples. As letras são minúsculas nas embalagens, e há siglas indecifráveis para quem não é formado em química.

Você pode fazer uma busca no banco de dados de cosméticos seguros do EWG (grupo de trabalhos ambientais, na sigla em inglês). No site www.cosmeticdatabase.com, você digita o nome da substância para descobrir os tipos de risco que oferece e em que produtos aparece.

Superada a dificuldade de decifrar a fórmula, vem outra questão: encontrar alternativas seguras de produtos.

No Brasil, não há um regulamento oficial para cosméticos ecológicos, orgânicos ou naturais. Uma saída é procurar produtos com selos de certificadoras reconhecidas, como a Ecocert, que tem origem francesa e ramos em vários países, incluindo o Brasil, e o IBD, que trabalha com as certificadoras NSF (EUA) e a Natrue (Europa).

A outra dificuldade é se acostumar com produtos que não usam as substâncias químicas habituais.

"Na percepção do consumidor, cosmético natural não tem muita eficácia", crê Christine Itagaki, gerente da Weleda, marca suíça de cosméticos e medicamentos.

Para Clélia Angelon, presidente da Surya, marca brasileira de cosméticos orgânicos certificados, o brasileiro ainda confunde aspectos sensorais do produto -fazer espuma, ter determinado aroma- com eficiência.

"É preciso educar o consumidor. Já temos [no Brasil] várias opções de cosméticos sem substâncias tóxicas e de excelente performance", diz.

Elas foram alisar o cabelo... e viraram militantes contra a 'beleza suja'

As jornalistas americanas Alexandra Spunt e Siobhan O'Connor se engajaram na luta por cosméticos seguros após uma infeliz experiência com um produto brasileiro.

A "escova progressiva", feita por US$ 400 a cabeça em um salão chique da Califórnia, custou-lhes também queda de cabelos, irritações nos olhos e na garganta.

Desconfiadas, investigaram a fórmula e descobriram que o que deixava o cabelo liso (e os olhos em brasas) era o formaldeído, tóxico presente em vários cosméticos. Partiram então para a pesquisa de outros produtos. Quase todos tinham substâncias no mínimo controversas.

Daí surgiu o livro "No More Dirty Looks" ("beleza suja nunca mais", Lifelong Books).

Leia o que elas contaram à Folha Equilíbrio.

Folha- Foi um produto brasileiro que as levou à pesquisa?
Alexandra Spunt - Sim. Fizemos a "Brazilian Blowout" (escova progressiva) e depois lemos sobre uma brasileira que morreu após fazer a aplicação em casa. Descobrimos que os produtos continham formaldeído em concentração maior que a permitida.
Passamos a questionar por que os cosméticos tinham substâncias tóxicas e por que são aprovadas por lei.

Todo cosmético é "sujo"? Deve-se abrir mão de todos?
Siobhan O'Connor - A questão é que a maioria não sabe o que está usando, mas é convencida pelos efeitos prometidos pelos fabricantes. Se você está informado sobre os riscos associados a certos produtos e mesmo assim quer usar, a escolha é sua. Até nós usamos às vezes algum produto "sujo".
Spunt - Cada um faz o que pode. Se você não vive sem tingir os cabelos, foque em outros produtos e coma os seus brócolis. Porém, se um produto sujo não tem resultados comprovados, como alguns cremes contra rugas ou estrias, abra mão dele.

Que produto vale evitar?
O'Connor - Qualquer um que cubra grandes áreas do corpo, como hidratante corporal ou sabonete. O passo seguinte são produtos para cabelos. É mais fácil mudar o cabelo do que a pele, não? Essa foi a nossa estratégia.
Demoramos mais para dispensar os cremes para o rosto e a maquiagem, mas nossa pele ficou muito melhor depois que os trocamos por produtos limpos.

Quais cosméticos vocês acharam mais difíceis dispensar?
Spunt - Rímel à prova d'água, com certeza.
O'Connor - Desodorante antitranspirante. Sempre tenho um à mão para algum encontro especial.

E o que é mais fácil de trocar?
Spunt - Sabonete, hidratante e esfoliante. É moleza trocar por produtos naturais.
O'Connor - Produtos para o cabelo. Depois que você se acostuma com fato de que os xampus limpos não fazem espuma, é muito fácil.

E a lei, como deveria ser?
O'Connor - A legislação deveria ser mais rígida e então não haveria polêmica sobre qual quantidade que pode causar câncer, qual é aceitável em um produto de beleza. Que tal nenhuma?

A indústria de beleza sobreviveria nesse mundo ideal?
Spunt - Certamente! Nós amamos os cosméticos. A indústria, limpa ou não, vai continuar. Ela deveria reformular seus processos, mas as pessoas não vão parar de comprar produtos de beleza.

frase

"Se você está informado sobre os riscos associados a certos produtos e mesmo assim quer usar, a escolha é sua. Até nós usamos, às vezes, alguns cosméticos tóxicos"
SIOBHAN O'CONNOR, ativista americana


ARMAS QUÍMICAS OCULTAS NA SUA NÉCESSAIRE

O que estão colocando dentro do seu cosmético

PARABENO
É um conservante presente em 90% dos cosméticos.

Tem a finalidade de evitar a contaminação microbiana, garantindo a segurança de uso.

A agência de vigilância sanitária regula o limite de uso da substância. A concentração considerada segura foi baseada em estudos internacionais.

Há muitos estudos mostrando que os parabenos contribuem para o desenvolvimento do câncer em pessoas predispostas. Outros trabalhos trazem evidências de que a substância afeta o sistema hormonal.

DIAZOLIDINYL UREA
Outro tipo de conservante, que pode ser usado em maquiagem, cremes para unha e cabelos, pós-barba e loções hidratantes. A Anvisa regula o limite de uso em concentrações consideradas seguras.

O produto pode causar alergias na pele e ser tóxico para o sistema imunológico, segundo alguns trabalhos publicados.

LAURIL SULFATO DE SÓDIO
Aprovada pela Anvisa, a substância tem ação detergente e a capacidade de formar espuma. É muita usada em xampus e sabonetes. Pode ser encontrada até em pasta de dentes.

Pode causar irritação na pele. Também pode, por reações químicas ou contaminação, gerar um subproduto, chamado 1,4 dioxane, que não tem uso aprovado e é considerado cancerígeno.

AMÔNIA
Usada para abrir as cutículas dos fios de cabelo para que recebam outros produtos (descolorantes, tinturas, alisantes, permanentes etc.), tem os limites de segurança de uso dispostos pela Anvisa. É irritante das vias áreas e da pele. Estudos mostram que tem efeito cumulativo no organismo.

PERÓXIDO DE HIDROGÊNIO
Mais conhecido com água oxigenada, é usado para clarear pelos e cabelos e como neutralizante em processos de alisamento, relaxamento, permanentes e tinturas.

A Anvisa controla os limites de uso, diferentes para produtos para cabelos e para clareamento de pelos. Irrita a pele. Estudos apontam que pode afetar o sistema endócrino.

FORMALDEÍDO (FORMOL)
A Anvisa aprova o uso como conservante em concentração máxima de 0,2% e como endurecedor de unhas até 5%. O uso como alisante capilar não é permitido pela legislação. Esse uso, segundo a Anvisa, pode causar irritação, coceira, queimadura, inchaço, descamação e vermelhidão do couro cabeludo, queda de cabelo, ardência dos olhos, falta de ar, tosse, dor de cabeça, ardência e coceira no nariz. Várias exposições podem causar câncer nas vias aéreas superiores.


Fonte: Folha de São Paulo no dia 21 de Setembro de 2010

Abraço,

Alexandre Liberato
Instituto Embelleze

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